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Jornal O Globo, Prosa & Verso, 16 de outubro de 2004

O jogo do enigma e da linguagem

Rachel Bertol

Idéia de Alberto Mussa, no início, era escrever um livro em 28 partes que corresponderiam às 28 letras do alfabeto árabe. Ao longo de dois anos, o escritor carioca — que em 1997 lançara os contos de “Elegbara” e, dois anos depois, “O trono da rainha Jinga”, premiado pela Biblioteca Nacional — esteve envolvido com a aventura do poeta al-Gatash pelos desertos da Arábia em busca do amor de Layla. Para ter direito à mulher de seus sonhos, al-Gatash, árabe dos tempos pré-islâmicos, ou da dita Idade da Ignorância, deveria, entre outras coisas, decifrar o enigma de Qaf, a 21 letra do alfabeto. E assim como o poeta é desafiado na história, os leitores são convidados a decifrar o enigma de “O enigma de Qaf” (Record), o livro que Mussa, de 43 anos, lançou neste segundo semestre e que o levou ao Festival Internacional de Literatura de Berlim, realizado entre 21 de setembro e 2 de outubro, onde ele brilhou como o único representante da literatura de língua portuguesa.

— Foi incrível ver o interesse deles. Meus textos foram lidos por atrizes judias e fiquei até emocionado quando vi que a intenção da organização do festival era justamente fazer uma ponte entre países. Até em shoppings fiz palestra que lotou — conta Mussa, que, de tanto sucesso, recebeu um convite para voltar no ano que vem ao festival que está pondo Berlim no mapa dos eventos literários internacionais.

Em 2001, quando Mussa tinha terminado de escrever a história do poeta, tendo jogado com as letras do alfabeto repleto de simbologia — de onde, segundo a tradição, pode-se extrair uma geometria da alma — ficou com a impressão de que o texto estava curto. Resolveu, então, temperar a densa história de al-Gatash intercalando os capítulos da trama a outros que chamou de parâmetros. Em todos eles, retrata grandes poetas, verdadeiros, da tradição árabe pré-islâmica.

— As lendas pessoais de cada um é que foram levemente alteradas, para me permitir alcançar um efeito literário diferente — conta o escritor, que também usa o seu nome real na história.

A narração da saga de al-Gatash começa em Campos dos Goytacazes quando o menino Alberto costumava ouvir do avô Nagib fragmentos da história. No livro, Mussa não apenas reconstitui a aventura, como busca provar, contra o cânone, que al-Gatash de fato existiu e que seu poema, escrito à medida que era vivido, deveria figurar ao lado dos sete grandes da tradição pré-islâmica — os únicos cujos poemas foram “riscados sobre peles de camela e mereceram ser suspensos da grande Pedra Preta que ainda existe em Meca, para ali penderem até se eternizarem na memória dos beduínos”. Nos parâmetros, Mussa fala dos sete máximos (Imru al-Qays, Tárafa, al-Hárith, Amru, Zuhayr, Ântara e Labid), assim como de outros seis poetas da mesma tradição. Não deixa de ser, também, um recurso para valorizar o personagem al-Gatash, numa mescla de ficção com realidade presente em outros autores de sua geração, como o premiado Bernardo Carvalho, em cujo mais recente romance, “Mongólia”, os nômades também atravessam um deserto.

— Eu tinha começado a traduzir, por conta própria, os poemas suspensos, que não estão disponíveis em português. No início pretendia comparar 27 poetas pré-islâmicos com o protagonista da história e assim preencher os 27 intervalos dos 28 capítulos principais — diz.

No entanto, Mussa só tinha à disposição edições dos textos árabes originais de 13 poetas. Por isso, teve a idéia de criar os excursos, outros 14 capítulos que intercalou às 28 partes e aos parâmetros. São as histórias mais surpreendentes de seu livro e podem até serem lidas como pequenos contos. Mussa inventou algumas delas, que soam como lendas, como a da mulher que, diante da sentença oracular de que iria morrer, acaba descobrindo a possibilidade de 3.732.480 destinos pessoais, cada um correspondente a um labirinto (conhecedora dos destinos, ela “pôde escapar, não só do seu, mas de todos eles”).

— São as partes de que mais gosto. Eu já estava embalado quando escrevi os excursos. O livro não ficou tão denso quanto um romance, mas nele há uma unidade. Eu diria que se o romance existisse no estado sólido e os contos, no estado gasoso, o meu livro seria intermediário, no estado líquido.

Em alguns excursos, o escritor dá voz a figuras como Aladim, Ali Babá, Simbad, Sherazade, e até Pitágoras, como em “Os triângulos de Spíridon”, no qual conta a história do filósofo versado em aritmética que chega a Jerusalém na hora em que dois ladrões e um impostor são crucificados. No alto do monte, as três cruzes eram o esboço de um triângulo retângulo (ao encarar o crucificado que jazia no meio, “uma imagem repentina dominou-lhe a mente. Já não tinha dúvida. Há seiscentos anos vira nascer aquele homem. ‘Por Allah’, gritou, no idioma nativo. ‘É Pitágoras!’”). Segundo Mussa, este foi o excurso mais difícil de escrever, devido ao jogo com a simbologia matemática do triângulo retângulo. A matemática, porém, está presente em outras partes do livro.

— Gosto muito de matemática — afirma o escritor, que chegou a estudá-la por algum tempo na universidade, antes de ingressar na faculdade de letras.